Como
Dentro do mar
Libérrimos
Os polvos
No líquido luar tateiam a coisa a vir
Assim
Dentro do ar
Meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar te a ti
És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes
Substância estranha e íntima
De teor irreal e tato transparente
Depois teu seio é a infância
Duna mansa
Cheia de alísios
Marco espectral do istmo
Onde
A nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste
Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro
Também pleno
Mas não sei
O ímpeto deste é doído e espanta
O outro me dava vida
Este me mete medo
Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas
E ponho me a cismar mulher
Como te expandes
Que imensa és tu
Maior que o mar
Maior que a infância
De coordenadas tais e horizontes tão grandes
Que assim imersa em amor és uma Atlântida
Vem me a vontade de matar em ti toda a poesia
Tenho te em garra
Olhas me apenas
E ouço
No tato acelerar se me o sangue
Na arritmia
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço
E te amo
E te amo
E te amo
E te amo
Como o bicho feroz ama
A morder
A fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre
Tenho te e dou me a ti válido e indissolúvel
Buscando a cada vez
Entre tudo o que enerva
O imo do teu ser
O vórtice absoluto
Onde possa colher a grande flor da treva
Amo te os longos pés
Ainda infantis e lentos
Na tua criação
Amo te as hastes tenras
Que sobem em suaves espirais adolescentes
E infinitas
De toque exato e frêmito
Amo te os braços juvenis que abraçam
Confiantes meu criminoso desvario
E as desveladas mãos
As mãos multiplicantes
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio
Amo te o colo pleno
Onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde é bom mergulhar até romper me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar
Amo te os grandes olhos sobre humanos
Nos quais
Mergulhador
Sondo a escura voragem
Na ânsia de descobrir
Nos mais fundos arcanos
Sob o oceano
Oceanos
E além
A minha imagem
Por isso isso e ainda mais que a poesia não ousa
Quando depois de muito mar
De muito amor
Emergido de ti
Ah
Que silêncio pousa
Ah
Que tristeza cai sobre o mergulhador