Olhei no espelho, não era eu
O gesto, o olhar, tudo se perdeu
A voz saiu, mas não era minha
E o corpo tremia como linha fina
A mão se move sem minha vontade
O passo é firme, mas sem identidade
O que me habita não pede licença
Só entra, domina, e deixa presença
Não é possessão, é missão sagrada
Mas às vezes pesa como cruz calada
Ser canal é dom, mas também é fardo
E o corpo emprestado cobra caro
Corpo emprestado, alma dividida
Entre o que sou e o que vem da vida
Entre o que penso e o que me atravessa
Entre o que cala e o que confessa
Tem dia que é luz, tem dia que é sombra
Tem hora que guia, tem hora que assombra
Mas sigo firme, mesmo sem mapa
Porque quem é ponte não foge da capa
Não sou só eu, sou multidão
Sou verbo, sou rito, sou incorporação
E mesmo sem nome, mesmo sem rosto
Eu sou o espaço onde mora o gosto
Corpo emprestado, alma dividida
Entre o que sou e o que vem da vida
Mas cada sessão, cada batida
Me lembra que o dom também é ferida